Vendedora de sorvetes e ex-moradora de rua é aprovada no vestibular da Ufba

Na prova da vida, Mona Lisa Nunes de Souza, 23, marcou a alternativa correta. Restava o vestibular e, também nesse caso, acertou em cheio.

Aprovada na Universidade Federal da Bahia (Ufba), seu nome consta entre os 45 selecionados para cursar história. Seria apenas mais uma estudante de ensino superior se na sua linha do tempo tudo não tivesse conspirado para que sequer completasse o primeiro grau.

 “Sentem-se aí”, convidou, ao receber o CORREIO na Igreja Batista Sinai, no Barbalho, onde fez um cursinho para alunos de baixa renda. Após puxar a cadeira e sentar-se, a mais nova estudante de História da Ufba começou contando a sua própria. Uma trajetória de tragédia e superação.

Atual vendedora de sorvetes no bairro do Santo Antônio, Mona conta que foi abandonada pela mãe quando criança. Entregue à avó numa cidade do interior, apanhava e era tratada como empregada doméstica. “Passava o dia lavando roupa e arrumando a casa. Me alimentava com restos de comida dela”.

 Sempre teve o sonho de reencontrar a mãe. Mas, quando ela reapareceu de repente, descobriu que na verdade o pesadelo começaria ali. Aos 9 anos, foi trazida para a capital sem ter onde morar. Passou seis anos nas ruas. A essa altura, a mãe e as duas irmãs estavam viciadas em crack. “Nunca nem toquei nessas”.

Sobrevivia pedindo esmolas, fazia malocas de papelão para dormir e esperava o “carro da sopa” passar à noite. Pela manhã, tomava café na Ladeira de Santana, onde até hoje existe uma instituição de caridade que assiste moradores de rua. Quando tinha comida para cozinhar, usava fogareiros de álcool. Numa dessas, aos 14 anos, foi vítima de uma explosão.

Alma queimada

“Coloquei álcool e não vi que ainda tinha fogo aceso no fogareiro”. Mona ficou 30 dias internada no setor de queimados do Hospital Geral do Estado com 40% do corpo atingido com queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus. “Fiquei desfigurada. Minha mãe só foi me visitar uma vez”. Isso lhe queimou a alma.

Órgãos públicos até ajudaram a família, que em alguns anos foi agraciada com duas casas do governo. “Mas minha mãe vendia as casas e voltava para a rua”. Mona era a única a não se conformar. Por iniciativa própria, longe dos olhares da mãe, matriculava-se em escolas públicas.

“Minha mãe era analfabeta e não queria que eu estudasse. Sempre dizia: ‘Pra que estudo? Com a vida que você tem, você não precisa’. Mas eu me matriculava escondido”.

Perdeu alguns anos letivos por ausência. “Eu tinha que fazer serviços domésticos o dia inteiro. Senão apanhava. Apanhava muito”. Através de uma instituição pública, conseguiu emprego como ajudante de cozinha de um restaurante que só abria aos sábados e domingos. Ganhava R$ 15 por dia. Foi quando fugiu de casa para morar no emprego. Teve que largar a família para não abandonar os livros.

Teve outros dois empregos. Trabalhava das 6h às 19h e corria para escola. No Colégio Estadual Marques de Abrantes, no Santo Antônio, conheceu o esposo, Welson Pereira, 27, com quem se casou há quatro anos. Logo ele, que largou os estudos para ser sorveteiro. “Ele é meio preguiçoso para os estudos. Fica dando desculpa pra não voltar a estudar”.

Informações do Correio

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  1. Adriano de Araújo: 
    Teofilândoa - 9 de fevereiro de 2011
    Resolvi escrever aqui por ter me emocionado com esta esta história de superação. Mona é mais um exemplo de que as pessoas muitas vezes só precisam do mínimo de condições para escreverem suas histórias de superação e realizações. Fico indignado que políticos corruptos matam a possibilidade de várias pessoas diariamente, quando assaltam os cofres públicos para saciarem seus desejos pessoais e dessa forma impedem que outras histórias com essa possa ser escritas a partir da escola. Que a escola sempre seja a prioridade número 1 dos governantes que realmente querem uma nação com dignidade.
  2. may: 
    capela do alto alegre .BA - 8 de fevereiro de 2011
    Essa é a verdadeira história de vida e de sofrimento com a vitória no final. Esta reportagem deveria ser escritas em outedoos, para todos os jovens de classe média e alta q anda por air se drogando e maltratando os moradores de rua. PUDESSE ver q dinheiro não é tudo qundo não se tem vontade. Essa moça teve garra e coragem.parabéns a ela.
  3. Aloizia: 
    8 de fevereiro de 2011
    São pessoas como está que realmente fazemos acreditar na educação e refletirmos que quem faz o seu caminhar é cada um de nós, apartir de nosso querer,quantas adversidades foram impostas a esta moça para que ela desistisse de tudo,porém ela conseguiu superar tudo e dá a volta por cima.
  4. Ana Lima: 
    Pé de Serra -Ba - 8 de fevereiro de 2011
    Parabéns, você é uma guerreira!!!! vá em frente Deus esta com você.
  5. Delmar Muniz: 
    Araci - BA - 8 de fevereiro de 2011
    Essa jovem é um verdadeiro exemplo para muitos de nós jovens que estamos aí caminhando na vida em busca de conquistar objetivos. Parabéns mesmo!
  6. jose aldair: 
    santaluz ba - 8 de fevereiro de 2011
    sem duvida e jesus na vida dela
  7. Cidadã coiteense: 
    Coité - 7 de fevereiro de 2011
    Essa menina está de parabéns! ela é uma grande vitoriosa. Que Deus o abençoe.
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