Ainda de Santaluz – Jolivaldo Freitas

O povo do sertão sempre me cativou pelo jeito afável e sincero...

Andava com saudade da educação no trato social, do sossego da madrugada calma e de não ter estresse de enfrentar trânsito conturbado noite e dioa. Do cheiro bom do capim e do barro molhado, do som do silêncio. Ainda estou em Santaluz, terra de gente educada, que agradece numa bom dia, boa tarde, boa noite. Que pergunta como vai a saúde e faz  questão de um forte aperto de mão. Onde ainda lojas fecham ao meio dia para o almoço e se almoça em casa.

O povo do sertão sempre me cativou pelo jeito afável e sincero, de jeito desconfiado e sorriso aberto, coisa que não se vê mais na cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos, a não ser que se vá à zona de Itapagipe, vez que o pessoal da Boa Viagem, Mont Serrat, Barreiro, Bonfim e Ribeira, passando pelo Cantagalo, vive de forma bucólica, como se estivesse num enclave extraurbano e onde é de bom tom dar bom dia, boa tarde, boa noite, como vai a senhora, como vai o senhor e ainda tem uns antigos que usam bonés – antigamente eram os chapéus de feltro, palha  ou Panamá – e os tiram da cabeça quando passa alguém mais velho; passa na porta da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem ou, claro, quando vem de lá uma moça bonita.

Gosto por demais do sertão e o conheço todo. Noite passado fiquei tempão parado, como abobado, numa das praças da cidade de Santaluz olhando centenas de pássaros pretos e canários-do-reino que se apinham na copa de uma árvore, acho que fícus, disputando espaço nos galhos. Fazia frio e ventava. Alguém me disse que quando a cidade acalma ainda mais, por volta das dez horas da noite, é a vez de aparecerem as aves predadoras. A coruja – para a maioria do povo agourenta – useira e vezeira plana, rasga a mortalha, dá uma queda de asa e invariavelmente leva uma ave no bico ou nas garras. Preferi não ver, não ser testemunha da escala alimentar da natureza.

Adotei uma cadelinha com pelo nas cores branca e vermelha, com alguma pintada de preto, que de tão magra parece que o estômago colou. Ainda não escolhi um nome para ela, que tem os olhos tristes e é desconfiada. Se fosse adotar todo animal esquálido que vejo no sertão que enfrenta mais um período de seca, teria de interagir com vacas, bois, carneiros, porcos e raposas, dentre tantas da rica fauna que vai de Feira de Santana ao Raso da Catarina.
 
Um amigo aqui de Santaluz me diz que além de ser um povo educado e gentil, o que venho comprovando, o luzense mantém o bom humor apesar das vicissitudes. Ele mesmo ri da tragicomédia de um senhor que morreu semana passada. O homem teve um treco, ficou um tempo em coma e certo dia acordou com fome, pediu feijoada, buchada e ensopado de carneiro. Levou uma semana comendo tudo a que tinha direito e sem quê nem para quê, morreu. Só levantou para comer.

 

Por: Jolivaldo Freitas

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  1. Gal Brasil: 
    10 de agosto de 2012
    Ah... Saudade dessa tranquilidade toda, meu irmão! Verdadeiramente ainda temos um "taquinho" dessa tranquilidade. O povo e hospitaleiro sim. Além de ser guereiro, valente entre outras caracteristicas. Pra viver no sertão tem que ter raça!! Pois quando chega o periodo da estiagem, fica "brabo". Rs,r,s,rs,rs... Mas graças ao bom Deus temos sido bem agraciados. Sejam todos mui bem vindos a Santa Luz
  2. ROBERTO FRANÇA: 
    ALAGOINHAS - 10 de agosto de 2012
    Concordo com tudo que foi dito, trabalhei ai em Santa Luz, hoje moro em alagoinhas e sempre que posso volto ai para visitar esta cidade maravilhosa e sua boa GENTE. Parabéns aos luzenses e todo povo do sertão pela receptividade, educação e sorriso no rosto. abraço.
  3. Araujo: 
    Salvador - 9 de agosto de 2012
    Muito bom gostei do texto. Jolivaldo Freitas seria irmão ou parente de Nelson Gois Freitas?, Nelson ja felecido era natural de Santa Luz e morou em Salvador
  4. CARLOS AUGUSTO: 
    8 de agosto de 2012
    EU ME ORGULHO DE SER LUZENSE,FALO DE BOCA CHEIA,RSRSRSR
  5. Santana: 
    Santaluz - 8 de agosto de 2012
    o autor descreveu com clareza o cotidiano da nossa querida Santaluz, da qual tenho grande orgulho te ter nascido nesse berço, de povo simples, honesto e trabalhador, e porque não dizer educado como é mencionado no texto. o nordestino é alem de tudo um forte ja dizia o poeta, e somos nordestinos natos, pena que a cada ano vem o flagelo da seca, que trás grandes perdas para o nosso sertão sofredor.
  6. De Belo Horizonte: 
    7 de agosto de 2012
    Parabéns Jolivaldo! Seu texto poderia ser uma crônica, mas você descreveu exatamente o jeito simples e cativante do povo Luzense e poque no dizer do nordestino como um todo. Povo sofrido, mas sempre de bom humor e confiante que dias melhores virão.
  7. Antoniel Rocha: 
    Santa Luz - 7 de agosto de 2012
    Esse fato e veridico com certeza!
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