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sexta-feira, 20 de junho de 2014 00:31

Blatter e Gregório na nossa Sé da Bahia – Mário Lima

 Enfim a Copa. Cidade eugenizada, policiada, uma belezura, coisa pra inglês vê.  

Afinal de que me queixo? Como ex-morador da antiga Estrada das Boiadas, por onde passavam as Linhas 8 e 10 do bonde, acaso esqueci de como ficava a Lapinha nas vésperas do Cortejo do Dois de Julho?

Pois bem, o que se vê agora, principalmente no entorno da Fonte Nova não é nenhuma novidade. Epa! Fonte Nova não, Arena Itaipava, ouviu! respeito a autoridade. Onde já se viu!Se não me seguram, ainda acabo protestando em defesa da memória do Dr. Otávio Mangabeira.

Por certo padeço desse anacronismo de ficar preso as reminiscências (que palavra mais demodê). Quem foi esse tal de Dr. Otávio Mangabeira? Um Governador que ao ver um ferrenho desafeto, atravessa a calçada da Rua Chile e vai lhe cumprimentar! Isto é lá coisa de um estadista? Governador de verdade é aquele que mandava baixar o sarrafo ou então o que, não podendo descer a madeira, cria cargos a torta e a direita, ou melhor, para a esquerda e para a direita, e aí ajeita tudo e governa a Bahia quase que sem oposição.

Essa pseudo-alegre, mas triste Bahia esquece os seus grandes homens, afinal, como disse Gregório, “A ti trocou-te a máquina mercante,/ Que em tua larga barra tem entrado,/ A mim foi-me trocando, e tem trocado, / Tanto negócio e tanto negociante.” E por isto, viva ao El Rei Blatter.

Como talvez perguntar ainda não ofenda: onde estava todo esse aparato de segurança que agora se vê por toda essa Cidade? Será que ele não seria capaz de evitar que, num espaço de quatro anos, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes crescesse 223,6% até 2013, como revelou o Mapa da Violência? Será que também não coibiria os sem número de furtos e roubos que acontecem a qualquer hora e em todos os lugares? Seguramente sim. Então por que esse policiamento ostensivo não é uma constante?

Ora, direis, que o Estado nos oferece uma segurança segundo a disponibilidade do Erário? Então, com sua licença,  peço que me mostre o cheque do Sr. Blatter que pagou toda essa conta. E aí sei que, já perdendo sua falsa paciência, dirás que a Copa é um evento que nos expõe ao mundo e, por isto mesmo, precisamos garantir o bem-estar daqueles que nos visitam e aqui deixam seu rico dinheirinho. Não querendo passar por erudito, mas com a cidadania e baianidade feridas, socorrendo-me de Gregório de Matos, respondo-te assim: Senhora Dona Bahia,/ nobre e opulenta cidade, / Madrasta dos naturais,/ e dos estrangeiros madre”.

Não engrosso as fileiras dos que confundem a torcida pela Seleção com alinhamento ao governo, mas não renuncio ao meu direito de crítica e protesto contra essa polítca irresponsável e perdulária  que é mais um estelionato eleitoral. Lamento que muitos que desceram ao meio-fio em junho do ano passado, talvez até por conta dos imbecis do black bloc agora estejam  em suas zonas de conforto e, para se justificar, usem o argumento de que agora é hora de torcer, que o momento do protesto foi quando a Copa veio para o Brasil.

Por tràs dessa argumentação está implícita a aceitação de que este País não é mesmo sério e de que não adianta protestar. E aí é melhor relaxar e, se possível, gozar. Então, não me resta senão relembrar o Boca de Inferno: “A nossa Sé da Bahia,/ com ser um mapa de festas, é um presépio de bestas,/ se não for estrebaria:/ várias bestas cada dia.”

MARIO LIMA

ADVOGADO E PROCURADOR DO ESTADO

 



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