economia

terça-feira, 29 de dezembro de 2015 23:41

Com a crise e a seca a lavoura do sisal passa pelos seus piores momentos; exportadores comentam o assunto

Experientes no ramo de sisal Maurício Mota, Gilberto Araújo e Misael Ferreira comentam momento ruim do comércio mundial.

Campo sisal goiabeira

Trazido do México por volta de 1903, somente a partir do final da década de 1930 o sisal passou a ser visto como uma alternativa econômica. A planta do tipo Agave Sisalana, foi introduzida nos estados da Paraíba, Bahia e Rio Grande do Norte, em virtude das condições climáticas propícias, que requer clima quente e grande luminosidade e é adaptada a regiões semiáridas, por ser altamente resistente a estiagens prolongadas, apresentando estruturas peculiares de defesa contra as condições de aridez. Já no México, se cultiva vários tipos de sisal, em destaque para o Agave Azul que produz a Tequila.

Situação atual de vários campos de sisal

Situação atual de vários campos de sisal. Motores param e leva muita gente ao desespero

Os maiores produtores de sisal do mundo, Brasil, África, China e o México. A Bahia produz 95% do sisal. O município de Conceição do Coité é considerado o polo sisaleiro na Bahia. A cadeia produtiva da cultura do sisal é muito importante porque gera mais 700 mil empregos e renda em toda região.

Analisando o cenário economico atual do Brasil, onde todos reclamam dificuldades financeiras o Jornal O Sertão, entrevistou três empresários exportadores de sisal, para saber como está o momento atual, da cadeia produtiva do sisal em Conceição do Coité, que outrora foi a grande fonte de geração de rendas para a população do município.

Gilberto Gonçalves de Araújo

A cultura do sisal é considerada o principal negócio da região para gerar rendas como está o momento atual do sisal?

Gilberto Gonçalves Araújo

Gilberto Gonçalves Araújo

Gilberto – O sisal hoje está em grande dificuldade em função da seca, sendo hoje o grande impercílio para a cultura do sisal, o segundo fator agravante foi quando há três ou quatro meses com a recessão mundial, a China que compra 40% do nosso produto, retraiu-se e não comprou mais nada. Inclusive, algumas empresas grandes da China pararam de funcionar, suspendendo todos os contratos com exportadores, chegando a baixar os preços de seus produtos para não concretizar o decreto do PIB (Produto Interno Bruto), então quando este principal cliente se retrai, “quando a china se gripa e espirra, molha o mundo todo” trava todo mundo”.

O negocio do sisal sobrevive de exportação, com as constantes altas do dólar, melhora ou piora para o produtor?

Gilberto – Com relação à alta do dólar melhorou para quem já tinha vendido o sisal, sem tomar adiantamento de Câmbio, foi bom para quem vendeu agora e tinha sisal estocado, pois, a moeda é muito volátil, hoje o dólar pode estar custando R$ 3,50, amanhã pode baixar para R$ 3,17, por conta destas consequências políticas do nosso país, reflete na carta de crédito, e os investidores ficam desconfiado, então o dólar fica oscilando, porque a nossa economia é muito inconstante, e depende muito de política, pois é quem faz a economia. Então qualquer probleminha que tenha em nível de governo, com esta “pendenga” de tira presidente de câmara, ameaça de impedimento a presidente do Brasil, então, esta “maracutaia” toda o dólar oscila para cima ou para baixo, então para o Brasil normalizar a situação econômica, primeiro precisa normalizar a política.

Como está o município de Conceição do Coité em termos de geração de rendas?

Gilberto – Conceição do Coité ainda é um município privilegiado por ser um município pequeno, com diversidade de culturas, como também uma diversidade de terreno onde predomina o minifúndio, aonde o maior fazendeiro não chega a 2 mil tarefas. Temos regiões, a exemplo de Juazeiro que é muito produtiva em mandioca, feijão e milho. Na região de Salgadália tem muito sisal, e a economia é muito boa para quem produz o sisal, um trabalhador mantém tranquilo um campo de sisal. Na colheita do sisal em 5 tarefas você coloca dois motores você emprega 5 pessoas. Depois você tem o transporte que entrega o sisal para a batedeira, empregando mais pessoas para a linha de produção para bater o sisal. Gerando mais de 500 empregos em toda região. Então é uma cadeia produtiva que beneficia muito o município.

Maurício Araújo

Há décadas que a cultura do Sisal é atividade econômica que mais gera renda para a população de Coité e região. Como está o momento atual do Sisal na sua opinião?

Maurício Mora

Maurício Mota

Mauricio – O sisal já esteve em melhores momentos, quando há três meses a demanda internacional do sisal estava bastante aquecida, porque estávamos fazendo muitos pedidos de compra do sisal, e por conta disso não estávamos dando conta de atender a demanda. Atualmente, esta demanda está caindo, porque lá fora (em outros países) o pessoal está estocando o sisal, nós temos um grande concorrente que é a África que produz sisal de alta qualidade está aumentando sua produção, isto faz com que os compradores deem preferência ao sisal africano.

O empresário esclareceu que a China é o maior cliente, ou seja, é o maior importador da fibra do sisal no Brasil, porque compra 65% de toda fibra exportada pelo Brasil. “Mas a China compra também da África, e está investindo forte, porque lá existe uma tecnologia de desfibramento do Sisal muito mais avançada do que nos temos aqui no Brasil”.Explicou o eempresário

Qual a solução para melhorar a qualidade do sisal brasileiro?

Mauricio – Há mais de 30 anos que entra governo e sai governo com promessa de uma nova máquina desfibradora, para melhorar o processo tecnológico no campo, e isto não acontece, não decola, já fizeram vários projetos e não sai do papel.

Mauricio fez questão de enfatizar que um dos problemas sérios que existe no Brasil, é a baixa qualidade da fibra do sisal. A produção do sisal na África está na dianteira, na vanguarda, por conta da qualidade, porque tem uma tecnologia bastante diferenciada do Brasil, porque é um sisal lavado, que tem uma especificação técnica rigorosa, ele é comercializado dentro das especificações técnicas rigorosas, obedecendo à umidade, qualidade, tamanho, coloração, impurezas e que o sisal brasileiro não tem isso”.

Ele afirmou que a maioria dos produtores de sisal do Brasil utiliza a lei do Gerson (O brasileiro gosta de tirar vantagem em tudo), e não tem o cuidado de obedecer as aspecificações de qualidade do sisal, ou seja: mal desfibrado com muita impureza e com grau de umidade elevadíssimo. Esta falta de cuidado faz com que a nossa mercadoria seja de péssima qualidade, e nós aqui nas beneficiadoras, em nossas batedeiras não podemos fazer milagres.

Ele constatou que em algumas indústrias estão utilizando a mistura do sisal africano com o brasileiro para produzir determinados tipos de fios, provando que o sisal brasileiro não consegue fazer determinado tipo de fio. “Nós temos muitas perdas com o sisal de baixa qualidade porque ele vira refugo, ou seja, é uma fibra do sisal que não está bom para desfibrar, e não tem utilidade, mas no caso da bucha, esta pode ser utilizada por fábricas de mantas que aproveitavam o subproduto do sisal, mas atualmente, algumas fábricas deixaram de usar o sisal porque é de péssima qualidade”.

Apelo

“Faço um apelo para os produtores rurais, fazendeiros, donos dos campos de sisal, façam com que o nosso sisal melhore a qualidade, não é só o desfibrador ou donos de batedeiras, mas também, faço um apelo para as autoridades governamentais investir mais em tecnologia para melhorar a qualidade do nosso sisal. Mauricio fez uma demonstração das duas qualidades do sisal: do africano uma coloração mais clara, a do Brasil, mais amarelada). Ele alertou se não houver nenhum tipo de investimento para melhorar a qualidade do sisal, futuramente esta demanda irar desaquecer e o nosso produto ficara desvalorizado, agravando com a crise econômica internacional centenas de trabalhadores rurais não irão ter o que fazer, ocasionando o êxodo rural. “Nós fazemos o que pudemos aqui nas batedeiras para descartar a parte ruim e apenas exportar a parte boa. Nosso forte é o sisal e tem que ser olhado com mais atenção por parte do governo, oferecendo apoio para melhoramento da qualidade, promovendo cursos de aprimoramento do sisal”.

Com o aumento do dólar melhorou a demanda de exportações?

Mauricio – Uma coisa é margem de lucro e rentabilidade outra coisa é demanda, a margem de lucro se tiver bons negócios você ganha, mas quando você não tem demanda o que acontece lá fora, os preços caem, porque o dólar está subindo e eles sabem disso e o produtor sabe também e sobe o preço da fibra, e subiu bastante, passou de mil dólares a tonelada, então, as pessoas pensam que para ser sincero foi melhor até para o produtor, para o intermediário, para o beneficiador do que propriamente os exportadores, porque nós somos meramente os repassadores, se a gente vende caro é porque compra caro, e a qualidade não é boa.

Mauricio lembrou que o mercado americano (Estados Unidos) é muito importante, porque compra o produto do sisal manufaturado, são os fios, cordas e cordéis. “O mercado americano é tão forte para os produtos manufaturados como a China é para a fibra do sisal, mas, também este mercado atualmente está desaquecendo, porque eles estão com sobras de estoques, porque temos um grande concorrente que é a fibra sintética derivada do petróleo (cordas de nylon, cordas de polipropileno trançada) e como o sisal subiu demais de R$ 1.10 ou 1.12 para R$ 3,00 reais, e o barril do petróleo baixou para 45 dólares. Então o fio agrícola do sisal está mais caro do que o fio sintético”. Esclareceu.

Existe um órgão chamado CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) que atua nos momentos de necessidade, para socorrer a cadeia produtiva do sisal. “A boa noticia é que quando o sisal estava com o mercado aquecido o produtor plantou mais sisal nos campos, e não estava necessitando da intervenção da CONAB no mercado, mas, surge à má noticia, esta demanda está desaquecendo, porque os compradores estão com o sisal estocado, e quando acontecem às sobras, o produto tende a cair, e quanto mais oferta o preço cai, e quando há demanda o preço sobe recentemente o preço do sisal subiu demais e todos ganharam com isso”. Concluiu o empresário.

Mauricio espera que a partir de 2016 as coisas melhorem, e que a China volte a comprar mais sisal brasileiro, para que não tenha que recorrer ao auxílio da CONAB.

Misael Ferreira

Misael Ferreira

Misael Ferreira

Para Misael Ferreira, que comercializa o sisal há décadas, há quatro meses a comercialização do sisal teve seus bons momentos, mesmo com os constantes aumentos do dólar, que é principal moeda de câmbio mundial, o sisal não sofreu as consequências, “Na realidade, nós vendemos o nosso produto para o exterior e recebemos pela mesma moeda. O que está havendo é uma retração muito grande da China no mercado internacional e está afetando os exportadores e aos industriais, porque a China comprava 70% do nosso sisal, mas o problema é que a China está vivendo momentos de recessão e esta trazendo complicações para nós que somos produtores e exportadores da fibra. Diante da instabilidade de crise econômica que passa o nosso país, o dólar vai continuar subindo, e a curto prazo não vejo esperanças que este quadro venha se reverter agora, pois o dólar já chegou a um patamar muito alto, e, estas incertezas provoca instabilidade no mercado, fazendo com que os nossos principais clientes parem de comprar, até que o mercado se estabilize” Frisou Misael.

Misael disse que já exportou sisal para vários países: da Ásia, Indonésia, Arábia Saudita, e os países da África que também está produzindo o sisal. “Hoje você só não tem o mercado Europeu, mas em compensação tem o mercado americano, estão entrando muito bem comprando os produtos manufaturados”. Pontuou.

Esta incerteza no mercado como fica o produtor local?

Misael – Na realidade o sisal é um produto de exportação, mas o mercado interno, aqui nas indústrias da Bahia e do Brasil, eles também estão se retraindo porque eles compram do produtor em real (R$) e isto está afetando eles, porque não estão podendo acompanhar a demanda e estão tendo prejuízo.

As incertezas dos nossos políticos em administrar o Brasil, afeta na economia?

Misael – Você conhece a minha historia, fui vereador, prefeito, deputado, mas eu nunca vi o país da forma que está hoje. Quando fui deputado já fui chamado a ser corrupto, mas, graças a Deus eu não quis aceitar as propinas que me ofereciam, por esta razão que eu deixei de ser político, quer dizer, para você ser político hoje você tem que ser propineiro, tem que receber propina, para ser político tem que ser rico, ele gasta o dinheiro dele porque sabe que ali pode tirar depois, da Educação, da Saúde da infraestrutura e tudo. Está o exemplo ai do mensalão, e o petrolão. Isto é uma vergonha, este PT que veio para salvar o povo, botou o povo no buraco e não vai sair tão cedo, porque eles se enlamearam, porque não sabiam que era tão fácil assim. Você tira o exemplo de José Dirceu, o cara preso e ainda fazia as mutretas no petrolão. Isto para nós cidadãos é vergonha. Por isso que eu não quero nem saber de política. Já me chamaram, várias vezes e a minha resposta foi a seguinte… me deixe descansar”. Finalizou.

Reportagem/Entrevista Mário Silva Jornal O Sertão: Edição Calila Noticias



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