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segunda-feira, 22 de agosto de 2016 21:28

Eduardo Cunha: quem é ou o que é – Mário Lima

Como se vê, Eduardo Cunha não é um personagem de si próprio, mas fruto de um sistema

A novela Eduardo Cunha vai demorar mais um tiquinho. A votação de sua cassação ficou para depois do impeachment da Doutora. O motivo é o medo de que lá ele jogue a coisa no ventilador. Realmente a fera é perigosa.

Por sua folha, esse sujeito jamais deveria ter chegado aonde chegou. A bem da verdade, por muito menos tem gente puxando cana das brabas. Mas então por que ele foi tão longe e custa tanto a cair?

Afinal, quem é esse Eduardo Cunha? Ao meu ver, responder que é um político corrupto e cara de pau não responde toda a questão. Por sua cara lisa, deveria ser enquadrado no Estatuto do Idoso, afinal não respeitou a idade de Paulo Maluf.

A propósito de Maluf, como não estou sob a jurisdição do Santo Ofício, cometo a heresia, o sacrilégio de dizer que sua lembrança serve para alguma coisa. Recordam-se do verbo malufar? Pois é, não faz muito, Maluf ocupou o posto que hoje é de Cunha, que também já foi ocupado por João Alves e tantos outros: o de diabinho da política nacional. Então, é melhor perguntar o que é Cunha.

A maioria dos escândalos políticos tem alguma relação com o orçamento. Uma das distorções do nosso sistema político são as emendas parlamentares, que vem a ser um instrumento de barganha na relação nada republicana entre os Poderes Executivo e Legislativo e de corrupção na relação de Congressistas e os financiadores de suas campanhas. Outra distorção é o Presidencialismo de coalisão, leia-se loteamento de cargos na Administração.

Doutrinariamente, compete aos Congressistas legislar e fiscalizar os atos do Poder Executivo. Pois bem, na prática, a coisa funciona assim: os Partidos apoiam um Governo; em troca, indicam ocupantes dos cargos; esses ocupantes de cargos ordenam despesas; parlamentares apresentam emendas ao orçamento do Executivo; as verbas das emendas  são, liberadas para que obras sejam tocadas pelos indicados dos Partidos; e o resto da história todo mundo sabe. Nada a ver, portanto, com os fins institucionais do parlamento.

Como se vê, Eduardo Cunha não é um personagem de si próprio, mas fruto de um sistema. De nada adianta querer apenas a cassação dos políticos corruptos, sem atacar o sistema que permite que corruptos se tornem parlamentares.

Enquanto a sociedade não chamar a si a reforma política, outros Eduardos Cunhas existirão e a política seguirá sendo um assunto de que não se pode falar na frente das crianças. Lembrando Eldridge Cleaver, “se você não é parte da solução, então é parte do problema. E um dos nossos problemas é justamente esse baixo interesse pela política. Sem me arvorar a dono da verdade, arrisco um palpite:  elevando   o nível de sua consciência cívica, a sociedade  vai compreender que não deve tratar o combate a corrupção apenas como  um espetáculo de malhação de judas.

MARIO LIMA

ADVOGADO E PROCURADOR DO ESTADO DA BAHIA



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