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quinta-feira, 22 de setembro de 2016 09:55

Prefeitura, burocracia e vida de cachorro – Jolivaldo Freitas

Como disse há décadas o então ministro Antonio Rogério Magri, inocentemente, mas até que podia ser de verdade: “cachorro também é gente”. Fora o alvará.

Gosto de animais, coisa que tomei gosto com o passar do tempo e tenho pena daqueles que andam soltos pelas ruas, principalmente os cães e os gatos, que, quando vão ficando velho são abandonados pela “família”, por ser custoso oferecer o mínimo de saúde e conforto e também trabalhoso atender aos animais que não servem mais para balançar o rabo, lamber as mãos e mostrar sua costumeira e desinteressada alegria.

Daí que acho louvável e digno de nota a atuação dos chamados voluntários, que cuidam dos animais abandonados, maltratados e jogados ao leo, mesmo que seja em locais improvisados, onde basta um teto num terreno baldio e a garantia para os bichos, de atenuação das suas dores, um pouco de sossego e carinho e um existir decente.

Mas soube que a partir de agora – e eu tenho certeza que o prefeito ACM Neto vai mandar consertar esta ausência de sensibilidade, pois também me disseram que ele cria um cão – os voluntários que querem promover  a adoção de filhotes e bichos idosos, precisam tirar um alvará para que isso aconteça. Não é nenhum atestado de saúde do animal, não. É um documento como se fosse para vender, por exemplo, cachorro-quente (não agüento trocadilhos, fazer o quê?). É como se fosse um comércio. Mas os burocratas da prefeitura sabem que a adoção não tem nenhum caráter mercantilista. É a forma de fazer com que o soteropolitano ajude a diminuir o sofrimento de cães, gatos, coelhos, etc.

Acredite que em minha carreira de repórter já fiz matérias mostrando que em Salvador abandona-se de tudo: jacaré filhote nos rios e lagos, como aquele que cresceu lá no Itaigara e que nem sei se ainda está lá ou foi levado para o zoológico. Tem quem gosta de jibóias e quando elas crescem jogam onde podem, sem falar em micos, camaleão e coelhos. Nos casos de cães e gatos, que não têm como se readaptar a uma vida digamos “selvagem”, o que salva é a ação caridosa dos voluntários.

E, se cada vez que o voluntário for levar os animais para algum ponto para ser adotado, tiver de tirar um alvará, vai ser complicado. Todos os voluntários que conheco – advogados ou advogadas, professora, médicas e agente federal – trabalham no dia a dia, cuidam dos animais levando-os a veterinários para vacinar, dar banho, tosar e são tantas as ações e a maioria ainda tem família para dar atenção. Então, para que o alvará para se instalar durante algumas horas num ponto qualquer da cidade que não vai atrapalhar o trânsito, não incomoda o transeunte e não oferece nenhum tipo de dissabor para a população?

O que falta de verdade é sensibilidade das autoridades para entender que se trata de um ato “humanitário” ou como diz um personagem do “Altas Horas”, para ajudar aos “seres humaninhos”. Imagine se não fosse a atitude e a sensibilidade dos voluntários, quantos cães e gatos estariam soltos pela cidade. Sofrendo, sendo maltratados, doentes e disseminando doenças frente à população.

Como disse há décadas o então ministro Antonio Rogério Magri, inocentemente, mas até que podia ser de verdade: “cachorro também é gente”. Fora o alvará.

Ninguém cuida dos animais; e quem cuida não tem tempo a perder. Este alvará é apenas mais uma pura bobagem de uma cidade que perde sua inocência para a burocracia, cujos burocratas querem controlar até coco de passarinho.

Jolivaldo Freitas * Escritor, jornalista e publicitário, editor do site Notícia Capital, comentarista da Rádio Metrópole, articulista do Jornal Correio e do Portal Metro1 – Cronista da Tribuna da Bahia – Colaborador do iG, Yahoo e Jornal do Brasil

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