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domingo, 16 de outubro de 2016 14:10

Dormindo no ponto – Jolivaldo Freitas

Dormir no ponto foi o que aconteceu com os estudantes que se municiaram de buzina, apitos, cartazes, faixas, tinta, ovo, água e gritos de guerra para admoestar e protestar contra o presidente Michel Temer lá na Usp em São Paulo no dia das eleições municipais

Há tempos que não ouço uma frase que os baianos usavam por demais quando alguém era roubado. Quando perdia alguma coisa; no momento em que levava corno; naquele instante em que levava um drible digno de Garrincha ou Messi e principalmente quando era passado para trás em suas aspirações: “Dormiu no ponto”.

Dormir no ponto foi o que aconteceu com os estudantes que se municiaram de buzina, apitos, cartazes, faixas, tinta, ovo, água e gritos de guerra para admoestar e protestar contra o presidente Michel Temer lá na Usp em São Paulo, dia de eleições para prefeitos e vereadores.

A assessoria de Temer jogou o barro e colou. Anunciou que ele iria votar no meio da manhã. Os estudantes acreditaram e ficaram em casa dormindo. Quando deu a hora seguiram caminho para a zona de votação do presidente e levaram um a zero. Temer já tinha votado desde a abertura da seção, manhãzinha cedo. Como dizia outra frase famosa: “Quem cedo madruga Deus ajuda”. E o presidente com seu entourage madrugou e atropelou os manifestantes.

Quando estudante, nos idos dos anos 1960 antes da entrada em vigor (vigoração existe? Deveria existir) do AI 5 perpetrado pelos elementos da ditadura militar, as manifestações, os protestos contra o governo eram feitos com as passeatas saindo dos colégios Central, Duque de Caxias, Anísio Melhor, Severino Vieira, João Florêncio Gomes e tantos outros de tantos pontos da cidade. Hoje os protestos se realizam na área do Shopping Iguatemi e na Paralela. Naquele tempo os estudantes convergiam para a Praça da Sé.

Os primeiros grupos chegavam na Sé antes da polícia, horas antes do batalhão de choque se postar junto com cavalos e cães. Ficavam ali disfarçando, assegurando o “ponto” para as hordas de estudantes que iam chegando subindo a Ladeira da Praça, a Montanha, a Conceição da Praia, Pelourinho e tantas ruas que desse para enganar os policiais que estavam prontos para dar de fanta (cassetete longo de madeira) e cassetete de borracha no lombo de quem dormisse no ponto. E tome gás lacrimogêneo e jatos de água.

Era certo que se dormisse no ponto – como fizeram os estudantes paulistanos – não haveria como adentrar a Praça da Sé e esticar as faixas e os cartazes com dizeres, protestos e palavras de ordem: “Abaixo a ditadura”. Quem chegava antes dominava o cenário. Agora, imagine se o acontecido tivesse ocorrido em Salvador. Os paulistanos iam rir e dizer que só na Bahia os manifestantes ficavam dormindo na rede esperando a hora para sair em protesto.

Mas foram os paulistanos que acordaram tarde, dormiram no ponto e da cama mesmo perguntaram:

– Manhêee! Quando for perto de Temer votar me avise que nós vai protestar.

– Já votou seu mané – responde a mãe.

– Ô. Mano! Demorô – desabafou o dorminhoco.



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