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quarta-feira, 09 de novembro de 2016 17:56

Fernando Holiday é mais uma das excrescências da direita brasileira – Mailson Ramos

Um negro que renega as injustiças históricas contra os negros é a maior das excrescências da direita brasileira; é o famigerado resultado da onda conservadora, um engodo típico das sociedades classistas ainda divididas entre uma senzala e uma casa-grande

Negro e de origem pobre, Fernando Holiday ganhou destaque na política nacional ao imprimir um discurso acalorado contra as cotas raciais e por sua importância dentro do Movimento Brasil Livre (MBL), organização que influenciou as manifestações favoráveis ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff; assim construiu a possibilidade de uma candidatura a vereador da capital paulista pelo DEM nas eleições deste ano.

Vitorioso na empreitada, Holiday apresentou alguns projetos que pretende por em execução tão logo assuma o cargo.  Um deles é a extinção do Dia da Consciência Negra. Ele também se declara contrário às cotas raciais e ao que chama de vitimismo. Não é possível saber se Fernando Holiday faltou às aulas de história, pois certamente não atenta o fato de que o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão, um processo nefando de tráfico de negros com duração de 300 anos.

Ao vereador eleito de São Paulo causa estranheza o vitimismo do negro. É justamente ele, um negro, a dizer que não existe intolerância racial no Brasil e a embarcar nas opiniões de colunistas da grande mídia, inveterados direitistas que não veem o racismo em sua peculiar onipresença.  Holiday não trai os negros e os desfavorecidos porque ele assim não se sente. Traz consigo um sentimento de repugnância aos programas sociais dos governos petistas, aquilo que considera assistencialismo.

A guinada à direita – ou o que se pode também chamar de queda ladeira abaixo – resultou em excrescências como esta: a de um negro que renega as injustiças cometidas contra os negros durante 300 anos; renega inclusive as reparações que o Brasil, com a assombrosa e resiliente desigualdade social, tentou executar. Não é raro que existam outros jovens negros como Holiday que sejam ou estejam capazes de desvelar a sua hipocrisia em nome de projetos conservadores e reacionários.

O que se escondia por trás da famigerada luta contra a corrupção era o estabelecimento de diretrizes para a total degradação da senzala que, sob os governos populares, se imiscuía nas decisões costumeiramente tomadas pela casa-grande. A degenerescência do negro que adentrou nas universidades – e daqueles que estudaram em escola pública a vida inteira (em sua maioria também negros) – incomodou a elite sobremaneira. Surgiu deste incômodo a necessidade de minar os discursos de afirmação racial. E seria justamente um negro a fazê-lo.

A expertise em destruir aquilo que sempre foi depredado não é das elites, mas das classes menos favorecidas: é preciso que um negro difame as próprias bases do seu pertencimento, que o pobre desprestigie outro pobre tão logo ascenda a uma classe social superior. Não se pode negar que o golpe contra a democracia é também reflexo de uma luta de classes irrefreável demonstrada em panelaços nas varandas de Higienópolis e no desfile de camisas em verde e amarelo nas avenidas nobres deste país.

Pobre de direita é uma classificação usual daqueles que renegam a sua própria sensibilidade diante de um estado que não ampara. É, antes de tudo, a soberba de quem diz não precisar de auxílios, esmolas. É este o Brasil que jovens como Fernando Holiday e Kim Kataguiri querem. É este o Brasil de Temer, reduzido às dimensões de Lilipute, ilha imaginária do romance Viagens de Gulliver, do escritor inglês Jonathan Swift, onde os habitantes medem apenas seis polegadas. Pequenos como os ideais da direita brasileira.

Diante da obsessão contra as cotas, contra o vitimismo, contra o Dia da Consciência Negra, Fernando Holiday se notabilizará também por apoiar João Doria, prefeito eleito de São Paulo. Os dois são autores da ideia de extinção das secretarias para LGBTS e negros. Ninguém ignora que ele, negro, já afirmou que estas minorias não devem ter menos direitos, mas também não devem ter direitos a mais. Direitos a mais… Num país que traficou negros da África, os antepassados de boa parte da população, durante 300 anos; numa terra onde pulula o racismo e a injúria racial; no Brasil onde um negro consegue rechaçar a própria negritude. Parece piada de mal gosto.

Mailson Ramos é relações públicas e editor do site Nossa Política.

 



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