agricultura

terça-feira, 07 de março de 2017 18:43

Consequências da Seca II – Vaqueiro trabalha até 17 horas por dia para não deixar o gado passar fome neste período

O Calila Noticias realiza uma série de reportagens sobre as consequências e os prejuízos causados pela seca nos territórios do sisal e Jacuípe. Esperando logicamente as chuvas, mas enquanto não chegam, mostra para o leitor a triste situação. Esta segunda reportagem conta o sofrimento de um vaqueiro para alimentar o gado quando a comida está cada vez mais dificil

Simbolo da resistência o mandacaru também está morrendo | Foto: Raimundo Mascarenhas

A seca é um fenômeno ecológico que se manifesta na redução da produção agropecuária, provoca uma crise social e se transforma em um problema político e as consequências mais evidentes são a fome, a desnutrição, a miséria e a migração para os centros urbanos, o conhecido êxodo rural. Quem conhece essa realidade é o vaqueiro Cristovam Jesus Barreto, 32 anos, conhecido por Nego. Ele trabalha a um ano na Fazenda Pedra Branca, Conceição do Coité, município localizado no território do sisal, na Bahia e segundo ele ainda não viu uma boa chuva nesse período.

Nego disse que a luta não é apenas pelo salário, é também por saber que os animais precisam de sua ajuda | Foto: Raimundo Mascarenhas

“Desde que cheguei aqui, prece que vi uma ou duas chuvas fina e passageira, daquela que faz o capim ficar verde, mas não cresce e morre logo”, contou Nego, enquanto mostrava uma extensa área da propriedade onde antes eram grandes pastos e hoje tudo deserto. “Eu não cheguei a conhecer, mas minha patroa conta que tudo isso era capim. Ela tem tanta tristeza em vê essa situação que fica pouco tempo aqui, pois se emociona”, conta o vaqueiro.

Na rotina diária, Nego disse que levanta as 03h da madrugada, vai para o curral tirar leite e fica por lá até as 06h, depois começa a intensa luta de alimentar os animais a base de ração e mandacaru e transporta água para o curral e isso vai até às 20h. “Faço isso com prazer de domingo a domingo, pois, tenho que cuidar dos bichos, não podemos deixa morrer. É uma missão que escolhi”, falou o vaqueiro a beira de um tanque cuidando de uma vaca caída.

Há exemplo de Nego e da esposa Iran, o filho Maicon, 09 anos, Denílson, 12 e Gabriela, 14, de quem é padrasto, estão sendo criados no meio rural e na luta com gado e vivenciando uma seca nunca vista por eles. Os três estudam pela manhã no Povoado de Almas, acordam bem cedo, dentro do possível, ajudam na “labuta de casa”, vão para escola e a tarde, dentro das suas limitações de criança e pré- adolescentes, buscam ajudar neste momento de muita dificuldade por causa da estiagem, “mas ajudam sem atrapalhar seus estudos”, ressalta Nego.

Dentro das limitações e sem atrapalhar os estudos, as crianças também auxiliam o vaqueiro | Foto; Raimundo Mascarenhas

Nego relatou que o custo para manter a fazenda é muito alto e sua produtividade cai a cada semana, ou seja, a média era 80 litros de leite diário e hoje só produz 50. “Se aquela vaca (caída) tivesse normal, aumentava mais 07 litros, pois ela é boa de leite”, garantiu o peão.

Natural da região do Distrito de Salgadália, Nego contou que cria umas cabras e ovelhas e gasta mais de R$ 400 por mês de ração, recurso retirado do salário que ganha na Fazenda Pedra Branca. Homem de muita fé em Deus, Nego disse acreditar nas coisas que os mais velhos falam. “Se entrar a quaresma sem chover, geralmente passa 40 dias sem chuva”, falou preocupado. Disse também que os mandacarus não estão fluorando, lembrando Luiz Gonzaga ao cantar Xote das meninas que  a letra dizia “mandacaru, quando fulora na seca, é o sinal que a chuva chega ao sertão”.

Nesta área o capim já passou de um metro de altura | foto: Raimundo Mascarenhas

Seca prolongada – A Bahia enfrenta a seca mais longa desde que começaram as medições pluviométricas. Desde 2010, a região está com chuvas abaixo da média. A região é naturalmente vulnerável às variações pluviométricas e os registros históricos e, mais recentemente, os dados do volume de chuvas mostram que foi assolada pelo menos 84 vezes por períodos de estiagem prolongada.

Redação CN

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