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quarta-feira, 05 de julho de 2017 19:31

O cinismo doentio se abateu sobre o Brasil – Mailson Ramos

O Brasil escreve a tragédia de uma nação que sonhou ser grande, mas se entregou de corpo e alma às necessidades vãs de uma elite política filiada ao gangsterismo.

Não faz muito tempo, um simples pronunciamento de Dilma Rousseff na televisão fazia surgir das varandas da classe média um uníssono panelaço; não menos barulhentas eram as manifestações “contra a corrupção” que tomavam as nobres avenidas das capitais brasileiras.

Por longos meses, a retórica da anticorrupção, do estado corrompido e do sistema político falido compôs um espaço de discussão nas redes da direita e se tornou pauta inarredável da agenda da mídia tradicional.

No grito intenso das convocações por um país sem corrupção, promovia-se a urgência da defenestração do governo petista e da imediata substituição da presidenta da República. Derrubar Dilma era tão necessário quanto saber quem assumiria o seu lugar.

A camarilha golpista que desembarcava do governo encontrou na força das manifestações de direita o caminho para chegar ao poder. E colocaram Michel Temer no Planalto, como promotor da revolução entreguista, neoliberalista e de desmonte do estado de bem estar social.

O governo passou a desmontar sistematicamente todas as políticas sociais desenvolvidas pelos governos anteriores; retirou das catacumbas da Câmara dos Deputados projetos que jaziam empoeirados como a Lei da Terceirização e a Reforma Trabalhista; arrancou do submundo de Brasília a Reforma da Previdência e empurrou goela abaixo a PEC 241 (PEC 55 no Senado), que congelará os gastos públicos em Saúde e Educação por 20 anos.

Entre uma reforma e outra, porém, as denúncias de corrupção se avolumaram. E evoluíram para provas concretas de que boa parte do governo é formada por ladrões de marca maior, bandidos que recebem malas de dinheiro e tramam até para matar delatores antes mesmo que eles delatem.

As gravações reveladas por Joesley Batista são marcas indeléveis da corrupção do governo Temer. A denúncia da Procuradoria-geral da República (PGR) enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) – e depois à Câmara dos Deputados – não deixa dúvidas de que Michel Temer cometeu corrupção passiva. (Leia aqui na íntegra).

Aécio Neves, que pediu ao Joesley R$ 2 milhões de reais para pagar os advogados que contrataria para se defender na Lava Jato, cogitou a possibilidade de matar a pessoa que transportaria este dinheiro. Antes de ela delatar.

Coisa de gangster.

Entretanto, Michel Temer continua ocupando o cargo que usurpou depois de muito conspirar; depois de toda a crise, o PSDB continuou no governo considerando o pacto de que, com a sua permanência, Aécio não seria preso. Hoje (30/06) o pacto foi concluído e Aécio não só não está preso como ganhou de volta o mandato que lhe havia sido retirado temporariamente pelo ministro Edson Fachin.

Antes, porém, a irmã (Andréa Neves) e o primo (Frederico Pacheco de Medeiros) do senador foram libertados e cumprem prisão domiciliar. Os processos de Aécio Neves estão nas mãos de Gilmar Mendes (com que tem notória amizade) e Alexandre de Moraes (que foi filiado ao PSDB).

Tão natural quanto estes ministros do STF julgarem ações de amigos é se reunirem com eles em seus gabinetes. Recentemente Gilmar Mendes se reuniu com José Serra. Gilmar é relator de processo de investigação contra Serra no STF.

Esconde-se sob o cinismo doentio a mais vil das conspirações.

Afinal de contas, as instituições públicas foram sequestradas por este governo que coloca toda a máquina estatal para auxiliar os seus a fugir da Justiça. E atacar sem pudor os inimigos. Sob o silêncio de quem, irresponsavelmente, colocou Temer à frente da nação.

O Brasil escreve a tragédia de uma nação que sonhou ser grande, mas se entregou de corpo e alma às necessidades vãs de uma elite política filiada ao gangsterismo. E hoje assiste às aulas públicas de reabilitação de notórios bandidos com a ajuda do Judiciário.

O país é a sombra do que foi há alguns anos. Rechaçado na Rússia e ignorado na Noruega, Michel Temer retornou ao Brasil com tratados desfeitos. Antes os presidentes desta nação visitavam países com o intuito de assinar tratados e estender relações diplomáticas. Atualmente os miasmas da corrupção rondam o governo moribundo e faz afugentar países amigos.

A primeira-ministra norueguesa Erna Solberg falava que o governo brasileiro deveria apoiar as investigações da Operação Lava Jato. Ironia da história: uma representante do país menos corrupto do mundo aconselhava um presidente investigado a manter as investigações.

Os grandes jornais do mundo como Le Monde (França), The Guardian (Inglaterra), The New York Times e Washington Post (EUA) repercutiram a denúncia contra Michel Temer por corrupção passiva. Ele se tornou o primeiro presidente da história do Brasil a ser investigado no cargo. Esta é a sua grande marca.

Os aliados do governo no Congresso Nacional mantêm o cinismo afirmando que a denúncia é apenas uma peça de ficção. Como se não soubessem que aquela mala rastreada, levada por Rodrigo Rocha Loures, viajou carregando R$ 500 mil num avião da FAB.

Pobre Brasil.

Mailson Ramos é relações públicas e editor do site Nossa Política.



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