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sexta-feira, 05 de janeiro de 2018 22:00

Chegou a hora de desarmar as lapinhas, tradição do Sertão

As lapinhas que são conhecidas também por presépios, são montadas na última semana de novembro e desmontadas dia 06 de janeiro, dia da Festa de Santos Reis.

Lapinha ou Presépio era montada na maioria das casas de famílias católicas. Hoje a tradição é mantida, mas se tornou rara | Foto: Teones Araújo

A aposentada Almerinda Maria de Oliveira, 81 anos, mãe de 15 filhos, dos quais 12 estão vivos, sendo seis homens e seis mulheres, viúva há quatro anos, residente na Fazenda Pau D’Arco, região do Mocambo, distante 17 km da cidade de Riachão do Jacuípe, apesar das limitações fisicas, completou 71 anos de tradição em armar presépio, ou como gostar de chamar, “lapinha”.

Dona Almerinda disse que enquanto tiver força, montará sua lapinha | Foto: Teones Araújo

Demonstrando conhecer bem as tradições do catolicismo, Dona Almerinda, como é chamada carinhosamente pelos moradores da comunidade, mora em uma casa centenária e que funciona como sede da fazenda, mantendo vivo o cenário do sertão, principalmente neste momento de seca. Ela conta a história das lapinhas que sua mãe fazia e que, ainda criança, o ajudava a montar.

Ela contou a equipe da rádio Calila News, que tudo começa no Advento, ou seja, um dos tempos do Ano Litúrgico e pertence ao ciclo do Natal, comemorado no último domingo do mês de novembro, dezembro inteiro e encerra com o desmanche do presépio no dia 06 de janeiro, na Festa dos Santos Reis.

Em regra, nos anos anteriores a lapinha de Dona Almerinda era armada no chão do quarto localizado no lado esquerdo da sala principal, porém com o avanço da idade e por sentir dores no corpo, ela resolveu aramar em cima de uma grande mesa colocada em um quarto menor.

Maria do Carmo disse que sempre ajudou a mãe, mas depois que casou-se passou a montar o presépio em sua casa | Foto: Teones Araújo

Das seis filhas de Dona Almerinda, cinco mantêm a tradição de armar presépio, a exemplo Maria do Carmo, 50 anos de idade e a sete, após se casar, manteve a tradição em sua residência. Ela contou ao CN que enquanto solteira ajudava a mãe e depois que se casou levou consigo a tradição.

Maria do Carmo contou que cada família monta a lapinha de seu jeito, fazendo grutas, casas, morros, cidades, rios, estradas e para isso são usados troncos e raízes de árvores secas, além de pedras, terra, tijolos, caixotes. Também é bastante usada uma cola caseira, feita de forma rudimentar a partir da fécula da mandioca, conhecida popularmente de “goma”, usada para colar as casquinhas, samambaias, entre outros objetos.

As lapinhas são enfeitadas com miniaturas de animais feitas de barro, casinhas de papel, búzios, pássaros, casa de João de barro, e algumas plantas nativas da caatinga. “Ficou difícil montar uma lapinha nos tempos de hoje, pois a seca acabou com tudo e esse ano tivemos que substituir o gravatá pelos olhos do abacaxi”, lamentou Maria do Carmo.

No período que as lapinhas ficam armadas, acontecem as visitas e as pessoas vão em grupos ou sozinhas e fazem suas orações e agradecimentos.

Lapinha no Povoado de Goiabeira

Se depender da aposentada Terezinha Araújo, 70 anos, mãe de 7 filhos, moradora de Vila Carneiro (Goiabeira), distante 08 km de Conceição do Coité, essa tradição será mantida por muito tempo. Ela disse que faz lapinha há quase 40 anos e herdou essa cultura de sua sogra, Dona Nair. “Aqui a gente via em muitas casas, hoje são poucas. A maioria dos jovens não se interessa. Mas se tiver três ou quatro que comecem a fazer, vai manter. Não podemos deixar acabar a lapinha, é uma tradição muito bonita”.

Dona Terezinha | Foto: Teones Araújo

Ela revelou que não foi pro mato buscar galhos e samambaias, mas contou com ajuda dos filhos Noelson e Nailda, dos netos Thomas, Douglas e Ludmila, bem como na labuta de três horas para construir e ornamentar o presépio, que segundo ela já foi maior. “Não se acha mais gravatá liso, orquídea e samambaia como antes. Hoje em dia a caatinga na região é bem menor e a seca acabou boa parte do que tinha. Ai a gente coloca o pouco que tem, casca e raspa de pau, gravatá de espinho, mas não deixa de fazer”, disse a agricultora.

Dia de Reis – É comemorado anualmente em 6 de janeiro. Também conhecido como Dia dos Reis Magos, é celebrado principalmente pelos cristãos. De acordo com a lenda, teria sido nesta data que o Menino Jesus, recém-nascido, recebeu a visita de três reis magos, os quais lhe trouxeram presentes simbólicos.

Chamavam-se Belchior, Gaspar e Baltazar e levaram para Jesus, respectivamente, ouro, incenso e mirra. Esses presentes têm cada qual um significado: o ouro indica o reconhecimento de Jesus como rei, o incenso, o reconhecimento de que ele é um ser divino, enquanto a mirra representa as características humanas de Jesus. Conforme narra a Bíblia, os três reis teriam encontrado Jesus Cristo graças a uma forte estrela que brilhava durante a noite, a estrela de Belém.

Redação CN



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