O que antes era apenas uma preocupação de pais desesperados com o tempo de tela dos filhos acaba de se tornar um prejuízo bilionário para as gigantes da tecnologia. No mês passado, de acordo com matéria publicada na The New Yorker, um júri da Califórnia proferiu um veredicto que promete abalar as estruturas do Vale do Silício ao considerar a Meta e o Google responsáveis pelo vício de uma jovem, identificada apenas como Kaley, em plataformas como Instagram e YouTube.
A indenização de seis milhões de dólares sinaliza uma mudança drástica na percepção pública e jurídica, estabelecendo que as empresas devem arcar com os custos dos danos que seus produtos supostamente causam.
Por décadas, acreditava-se que as redes sociais eram intocáveis graças à Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações de 1996, que protege as plataformas de serem responsabilizadas pelo conteúdo publicado por terceiros. No entanto, os advogados de Kaley, que iniciou o processo aos 17 anos alegando ansiedade, depressão e dismorfia corporal, criaram um drible jurídico genial. Em vez de atacar o conteúdo, eles focaram no design do produto.
A alegação central é que as empresas foram negligentes ao projetar recursos como rolagem infinita, filtros de beleza, reprodução automática e notificações push para maximizar o engajamento a qualquer custo, ignorando os perigos do vício.
Essa abordagem não é exatamente uma novidade no mundo jurídico. Na década de 1990, as grandes empresas de tabaco enfrentaram acusações semelhantes de que haviam projetado cigarros para serem mais viciantes, acelerando a absorção de nicotina. Assim como os fumantes, os usuários de estariam sendo “fisgados” por engenheiros que criam labirintos digitais irresistíveis.
A juíza Carolyn B. Kuhl permitiu que o caso fosse a julgamento justamente por entender que o problema não era o que Kaley via, mas como o design das plataformas a forçava a interagir com elas.
Uma vida monitorada
O depoimento de Kaley foi um retrato fiel — e um tanto assustador — da Geração Z. Ela revelou que estava no YouTube desde os seis anos e que, aos dez, já tinha postado mais de duzentos vídeos. Para inflar sua própria popularidade, a menina criou nove contas falsas apenas para curtir e comentar seus próprios posts, admitindo que assistia aos vídeos escondida, inclusive durante as aulas, e que simplesmente não conseguia parar.
O momento mais marcante do julgamento ocorreu quando o advogado de Kaley confrontou o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, com uma colagem de centenas de selfies postadas pela jovem no Instagram ao longo de anos.
A defesa das empresas tentou um contra-ataque clássico: culpar a criação familiar. A Meta sugeriu que os problemas de Kaley vinham de abusos e negligência de sua mãe, e não do aplicativo. Contudo, a estratégia não funcionou porque a lei da Califórnia exige apenas que a negligência da empresa seja um “fator substancial” para o dano, e não a causa única. Em outras palavras, o júri entendeu que, mesmo que a vida em casa não fosse perfeita, o design viciante das redes sociais deu o empurrão final para o abismo.
O próximo capítulo
Enquanto a Meta afirma que a saúde mental é complexa e o Google defende que o YouTube é apenas uma plataforma de streaming, ambas preparam recursos contra a decisão. Entretanto, o caso de Kaley é apenas a ponta do iceberg, servindo como um “caso-piloto” para milhares de outras ações judiciais.
A grande ansiedade agora se volta para a inteligência artificial. Já existem processos contra a OpenAI alegando que chatbots incentivaram suicídios ou criaram dependências psicológicas profundas em adultos e crianças.
A resposta da OpenAI segue o roteiro das antecessoras, alegando que os danos vêm do “uso indevido” ou “imprevisível” de suas ferramentas. No fim das contas, o que o veredicto de Kaley nos ensina é que a autonomia humana está em jogo. Se antes os pais competiam com o “amigo suspeito” ou o “vizinho barulhento”, hoje a luta é contra algoritmos silenciosos que conhecem nossos desejos melhor do que nós mesmos. A era da irresponsabilidade digital parece estar, finalmente, dando o seu último “scroll”.
Fonte: Correio | Por @flaviaazevedoalmeida


