Território Semiárido Nordeste II – A Romaria da Santa Cruz do Serrote, realizada neste domingo (3), na Fazenda Serrote, em Sítio do Quinto, reuniu milhares de fiéis em mais uma edição de uma das mais tradicionais manifestações religiosas do interior da Bahia.
A celebração tem origem em uma devoção popular que já ultrapassa dois séculos, marcada pela veneração à Santa Cruz e à Virgem Maria. Ao longo dos anos, o local se consolidou como um importante ponto de peregrinação, atraindo romeiros de diversas regiões.
A romaria, no formato atual, foi idealizada pelo Padre Rosivaldo Gama Wanderley, conhecido popularmente como Padre Romeiro. Ao assumir a Paróquia Santo Antônio, em Sítio do Quinto, no ano de 2007, ele identificou a forte devoção existente no local e iniciou um trabalho de organização e fortalecimento da fé popular.

A primeira romaria oficial aconteceu em 3 de maio de 2012, marcando o início de uma nova fase para o espaço religioso. Entre as principais intervenções realizadas está a construção da escadaria com 188 degraus, em 2011, que facilitou o acesso dos fiéis ao alto do Serrote no ano seguinte.
Durante os 14 anos em que esteve à frente da paróquia, o sacerdote conduziu a construção do Santuário da Misericórdia e estruturou o local como um centro de acolhimento para romeiros, consolidando a romaria como uma das mais importantes da região.

Atualmente transferido para a paróquia de Ribeira do Pombal, o padre retornou a Sítio do Quinto para celebrar a missa principal da romaria deste ano, realizada às 9h, momento considerado o ponto alto da programação religiosa.
O espaço é reconhecido como um importante centro de religiosidade popular, semelhante a outros grandes polos de peregrinação do país, como Juazeiro do Norte, associado à devoção ao Padre Cícero, e o santuário de Bom Jesus da Lapa.
No local, os fiéis encontram diversos símbolos de devoção, como a veneração à Virgem Mãe das Dores, ao madeiro da Santa Cruz do Serrote e à Nossa Senhora Aparecida.

Um dos pontos mais marcantes é a imagem de Nossa Senhora das Dores, com cerca de três metros de altura, instalada sobre uma capela dedicada a Jesus, simbolizando a presença da Virgem Maria aos pés da cruz.
Outro destaque é a imagem localizada ao pé do morro, doada por antigos tropeiros — conhecidos como muladeiros — durante as celebrações dos 300 anos de devoção a Nossa Senhora Aparecida. Em anos anteriores, o local chegou a receber romarias com mais de 600 animais, reunindo participantes de várias regiões da Bahia.
A cruz de madeira centenária, considerada sagrada pelos fiéis, é o principal símbolo da romaria. Ela representa a vivência da cruz redentora de Jesus Cristo e é o elemento central da devoção que move os romeiros a subirem o serrote em um gesto de fé e reflexão.
Fé e devoção marcam momento da Eucaristia mesmo sob sol e chuva durante a celebração
Durante a missa principal das 9h, um dos momentos mais marcantes da romaria foi a demonstração de fé dos fiéis diante das mudanças climáticas. No início da celebração, o tempo ficou nublado e chegou a chuviscar, levando a multidão a abrir guarda-chuvas. Pouco depois, o sol surgiu com intensidade e calor forte, mas muitos romeiros mantiveram os guarda-chuvas abertos para se proteger.

No momento da Eucaristia, ponto central da missa, o padre solicitou que os fiéis abaixassem os guarda-chuvas, em sinal de respeito ao ato sagrado, sendo prontamente atendido.
A hóstia, que para a Igreja Católica representa o Corpo de Cristo, simboliza a comunhão com Deus e é um dos elementos mais importantes da fé cristã. Durante a distribuição, o clima de reverência tomou conta do local, evidenciando a fé do povo.
Pároco destaca continuidade da tradição e força da participação dos fiéis na organização da romaria
O administrador paroquial da Paróquia Santo Antônio de Pádua, em Sítio do Quinto, Pe. Hermanio José, destacou a importância da romaria como expressão viva da fé popular.
Segundo ele, ao chegar à paróquia, a romaria já existia como uma tradição consolidada, que inclusive ele já conhecia de outras edições, por também ser músico e já ter participado anteriormente do evento.

De acordo com o sacerdote, a organização da romaria se fortalece a partir do envolvimento da comunidade. Com a participação dos fiéis e de toda a equipe, a romaria se torna de fato uma bênção.
O padre reforçou ainda o caráter devocional do evento, afirmando que a romaria é, acima de tudo, uma manifestação de fé do povo.
Bispo da Diocese de Paulo Afonso destaca força da fé e importância da romaria para a vida da Igreja

O bispo da Diocese de Paulo Afonso, Dom Guido Zendron, participou da romaria e destacou a importância do evento para a vivência da fé cristã.
Italiano de Trento, Dom Guido Zendron foi nomeado pelo Papa Bento XVI e está à frente da diocese desde maio de 2008.
Em entrevista ao Calila Notícias, ele ressaltou o significado espiritual do encontro. “É um momento muito forte para encontrar tantas pessoas e tantas pessoas encontrarem, na Igreja e através da Igreja, o significado da vida cristã”, afirmou.
Romaria já apresenta características de grandes centros de peregrinação da Bahia e do Nordeste
A Romaria da Santa Cruz do Serrote, em Sítio do Quinto, já apresenta características semelhantes às principais romarias do estado e do Nordeste, como Monte Santo, Bom Jesus da Lapa e Juazeiro do Norte.

A cada edição, cresce o número de participantes, com grande quantidade de ônibus vindos de diversos municípios, organizados por comunidades e paróquias de toda a região.
Comércio intenso transforma o espaço em uma grande feira durante a romaria
Outra marca importante da romaria é o forte movimento comercial no entorno do santuário, lembrando uma tradicional feira livre do interior.
Durante o evento, dezenas de barracas são montadas, oferecendo desde itens religiosos até alimentos e produtos diversos. Os romeiros aproveitam a ocasião também para realizar compras, movimentando a economia local.



