Em meio às dificuldades impostas pela seca, pelas longas distâncias, pela falta de estrutura e pelos desafios diários enfrentados no sertão baiano, dois municípios de uma mesma região protagonizaram um feito simbólico e histórico no atletismo nacional. Atletas de Monte Santo e Jaguarari figuraram entre os três primeiros colocados da Corrida de São Silvestre, justamente no ano da centésima edição da prova, uma das mais tradicionais do mundo.
O monte-santense Fábio de Jesus conquistou a terceira colocação na categoria masculina. No feminino, a atleta jaguarariense Núbia de Oliveira também subiu ao pódio, garantindo o terceiro lugar entre as mulheres. Mais do que resultados, as conquistas carregam um profundo significado social, cultural e histórico para o sertão da Bahia.

Fábio celebra uma posição a mais na mesma competição, já que na corrida de 2022 ficou em quarto lugar e na ocasião, primeiro entre os brasileiros. Veja a reportagem que destaca outras corridas e maratonas que ele participou.

Embora Monte Santo integre o território do Sisal e Jaguarari pertença ao território do Piemonte Norte do Itapicuru, a divisão administrativa não apaga o que os une. São municípios praticamente vizinhos, com terreno semelhante, marcados pela caatinga, pelo relevo exigente, pelo clima seco e por longos períodos de estiagem. A cultura, a forma de viver, o espírito de coletividade e a resistência do povo sertanejo são praticamente os mesmos.

Treinar nessas cidades significa enfrentar o sol forte, a escassez de espaços adequados, a falta de incentivos e a necessidade de conciliar o esporte com o trabalho e as responsabilidades familiares. A seca, que afeta a economia e o cotidiano, também impõe limites físicos e emocionais, transformando cada treino em um exercício diário de superação.
É desse cenário que surgem Fábio de Jesus e Núbia de Oliveira. Dois baianos do sertão que transformaram dificuldade em força e fizeram do próprio território um espaço de formação esportiva. O que eles conquistaram vai além de medalhas: representa a capacidade de competir em alto nível mesmo longe dos grandes centros e sem grandes estruturas.

O feito ganha ainda mais relevância ao se observar o contexto da prova. Na classificação geral, os dois atletas brasileiros ficaram entre os três primeiros colocados, sendo superados apenas por corredores estrangeiros. No masculino, o pódio foi formado pelo etíope Muse Gizachew (1º lugar), pelo queniano Jonathan Kipkoech (2º lugar) e pelo brasileiro Fábio de Jesus (3º). No feminino, a vitória ficou com a tanzaniana Sisilia Ginoka Panga, seguida da queniana Cynthia Chemweno, com a brasileira Núbia de Oliveira completando o pódio na terceira posição.
O fato de dois atletas do sertão baiano serem os melhores brasileiros da centésima Corrida de São Silvestre, em categorias diferentes, reforça o caráter histórico do momento. Trata-se de um marco para Monte Santo, Jaguarari e para toda a região, que passa a ocupar espaço de destaque em uma competição de alcance internacional.
As conquistas inspiram jovens, fortalecem o esporte como ferramenta de transformação social e reafirmam que o sertão da Bahia segue produzindo talento, disciplina e excelência. Monte Santo e Jaguarari, cada um em seu território, mas unidos pela mesma realidade, pela mesma cultura e pela mesma luta diária, agora dividem também um capítulo importante da história do atletismo brasileiro.




