Neste 1º de janeiro de 2026, Conceição do Coité inicia o ano com um motivo especial para agradecer: o centenário de Maria Barreto Almeida, conhecida e amada como Dona Cota, moradora que atravessa cem anos entre Tapuio, Araci e a zona rural de Coité, construindo uma vida marcada por fé, família, luta e resistência.
Nascida na comunidade de Tapuio, Dona Cota perdeu os pais ainda criança. Órfã, foi trazida para Coité por uma irmã mais velha, onde cresceu e iniciou sua história. Aqui conheceu o homem com quem se casaria e formaria sua família, iniciando uma trajetória que se confunde com a própria história da região.

Um século vivido
A trajetória de Dona Cota atravessa mudanças profundas no sertão e na própria Bahia. A infância marcada pela perda, a juventude na lida do campo, o casamento aos 18 anos, a criação de cinco filhos com simplicidade e o cotidiano da roça moldaram sua resistência.
Aos 18 anos, em 1944, casou-se com Justiniano Cássio Rodrigues, com quem viveu por 60 anos, até seu falecimento em 2004, aos 86 anos. Em 2026, Dona Cota completa 22 anos de viuvez, mantendo viva a memória do companheiro com quem construiu toda a vida adulta e enfrentou os desafios do sertão. Se estivesse vivo, Justiniano teria 109 anos.
Companheiros de vida e de luta, enfrentaram secas severas, tempos de escassez e os desafios da criação dos filhos na roça — mas sobreviveram com trabalho, união e fé.
Hoje, cercada por netos, bisnetos e tataranetos, ela é a última sobrevivente entre os irmãos — a guardiã viva da memória familiar.
A fé é viva
Membro da Congregação Cristã no Brasil há muitas décadas, Dona Cota tem a fé como base da existência. Sua espiritualidade é prática: ora por todos — pela família, vizinhos, parentes e até pessoas que ela não chegou a conhecer.

Atualmente, vive na sede de Conceição do Coité com a filha Dona Marivalda Barreto, que conversou com o Calila Notícias e relatou o cotidiano da centenária: “A fé dela é viva. Ela ora por todos. Pela família, pelos parentes, por quem chega. Ela não esquece de ninguém.” — afirma Dona Marivalda Barreto
Residência: Travessa Felipe Nério Pastor, sede de Conceição do Coité.
A mulher do véu
Na Congregação Cristã no Brasil, o véu simboliza humildade e reverência diante de Deus. Para Dona Cota, o véu nunca foi enfeite — sempre foi devoção. Mesmo com limitações da idade, quando participa de cultos, não comparece sem o véu. E quando as celebrações acontecem na zona rural, a família mantém a tradição com carinho: “Quando tem culto lá na roça, eu boto o véu na cabeça dela. Mesmo quando a voz se cala, o véu fala por ela”, relata Marivalda.

Celebração na Mandaçaia
As comemorações pelos 100 anos vão acontecer em dois momentos: 1º de janeiro de 2026 — aniversário de 100 anos, com família e amigos. Sábado, 4 de janeiro — à tarde — culto da Congregação Cristã no Brasil na Fazenda Mandaçaia, no terreiro da casa onde Dona Cota viveu mais de 50 anos.
Mesas e cadeiras serão colocadas ao ar livre, como nas antigas reuniões da comunidade: “Vamos comemorar lá, na roça dela. No terreiro.” — diz a família.

99 para 100: a palavra que virou promessa
Em 1º de janeiro de 2025, ao completar 99 anos, Dona Cota declarou: “Deus vai me permitir chegar. Eu vou completar 100 anos”, e a promessa está se cumprindo.
Um território de centenários
Próximo ao Tapuio, está o Sítio de Maria Vitória, área entre Conceição do Coité e Santaluz, conhecida por registrar diversos moradores centenários. Aquela faixa de sertão, que se estende até o Tapuio, forma um cinturão de longevidade, onde o tempo parece correr diferente — movido por fé, trabalho e sobrevivência. Dona Cota faz parte desse legado e dessa marca do sertão.
O centenário de Maria Barreto Almeida (Dona Cota) não é apenas um aniversário. É um testemunho.
É a história de Conceição do Coité — do candeeiro à energia elétrica, do carro de boi ao celular, da roça ao centro da cidade, das mãos calejadas ao véu em reverência.

No primeiro dia de 2026, Coité não comemora apenas o novo ano. Celebra um século de vida, fé, luta e legado.




