Mentir faz parte da experiência humana. Em maior ou menor grau, todos recorremos a ela para evitar conflitos, escapar de punições, proteger alguém ou preservar a própria imagem. No Dia da Mentira, celebrado em 1º de abril, o assunto costuma aparecer em tom leve, associado a brincadeiras. A data, porém, também abre espaço para uma conversa mais profunda: o que acontece quando a mentira deixa de ser circunstancial e passa a se tornar um padrão?
É nesse ponto que entra a mitomania, ou mentira patológica. Diferentemente da mentira “comum”, que tende a ser estratégica e episódica, na forma patológica o ato de mentir se repete com frequência, de maneira rígida e disfuncional. São distorções constantes da realidade, muitas vezes sem ganho claro, que acabam comprometendo vínculos afetivos, relações profissionais e até a forma como a própria pessoa se enxerga.
Segundo Greice Carvalho, professora do curso de Psicologia da Estácio, a repetição do comportamento, mesmo diante de prejuízos evidentes, é um dos principais sinais de alerta. “Quando a mentira passa a ser o principal modo de lidar com frustrações, conflitos e inseguranças, ela deixa de ser um ato isolado e passa a indicar um padrão”, explica. Histórias exageradas, fantasiosas ou até autossabotadoras, mantidas mesmo após confrontos ou perdas, merecem atenção.
Embora seja conhecida popularmente, a mitomania não aparece como um transtorno isolado nos manuais diagnósticos atuais. Em geral, está associada a outros quadros, como transtornos de personalidade, dificuldades de autoestima, traumas ou vivências de humilhação e rejeição. Nesses contextos, mentir pode funcionar como mecanismo de defesa, uma tentativa de sustentar uma identidade idealizada ou de proteger um self fragilizado.
As consequências tendem a ser significativas. A confiança, base das relações humanas, se enfraquece. Relações afetivas podem se romper, a credibilidade profissional é abalada e o isolamento pode aumentar. Não raro, a busca por ajuda ocorre após uma crise, quando os impactos se tornam difíceis de ignorar.
O tratamento é psicoterápico e vai além da simples proposta de “parar de mentir”. O foco está em compreender por que a mentira se tornou necessária naquele momento da vida. “Ao trabalhar autoestima, responsabilização e regulação emocional, a psicoterapia possibilita a construção de uma narrativa mais autêntica e integrada”, destaca Greice.
Por: Daniela Cardoso | Estácio Feira



