A 3ª Conferência Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário (CEDRSS) da Bahia encerrou seus trabalhos na sexta-feira, 30, no Centro de Convenções de Feira de Santana, após três dias de debates voltados ao fortalecimento da agricultura familiar e à construção de políticas públicas para o desenvolvimento rural no estado.

O evento reuniu representantes dos 27 territórios de identidade da Bahia, em um processo marcado pela escuta ativa, pelo diálogo e pela construção coletiva de propostas. As discussões abordaram os desafios e as conquistas da Bahia Rural, com ênfase em eixos sustentáveis e solidários, como a convivência com as mudanças climáticas, a agroecologia e o fortalecimento da agricultura familiar. O objetivo final foi a elaboração de um documento orientador, que irá subsidiar as políticas públicas de desenvolvimento rural nos próximos anos, com repercussão também na mídia.

Ao final da conferência, foram escolhidos 54 representantes da Bahia para o Congresso Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, que acontecerá em março, em Brasília. Entre eles está Jamile dos Santos Mota, uma jovem de 21 anos, do município de Ouriçangas, cuja trajetória simboliza o protagonismo da juventude rural, das mulheres e das comunidades tradicionais no processo de construção das políticas públicas para o campo.
Jamile Mota integra o Território Litoral Norte e Agreste Baiano e é estudante da Escola Família Agrícola da Região de Irará. Filha de agricultora familiar, ela mora no povoado Iraí, uma comunidade extrativista, remanescente de catadores e catadoras de mangaba. Vinda de uma família numerosa, com sete irmãos, todos ligados à agricultura e ao extrativismo, Jamile carrega a vivência direta do campo e das tradições do seu território.
A trajetória até a etapa nacional começou na etapa municipal, realizada pela sociedade civil na comunidade da Formiga, em Ouriçangas, com articulação da Cooperativa Agroindustrial de Ouriçangas. Nessa fase, foram debatidas as reais necessidades do território e escolhidos os delegados que avançariam para as etapas seguintes.

Na etapa territorial, conduzida sem a participação do poder público, o desafio foi concretizar as propostas, transformando demandas em pautas claras e objetivas. Já na etapa estadual, realizada em Feira de Santana, participou da conferência acompanhada do presidente da COOPERCANGAS, Jonilson Gonçalves Pinto reforçando o papel da sociedade civil organizada e das cooperativas na representação do território no debate estadual.
Segundo Jamile, o processo conferencial exige preparo, foco e clareza de objetivos. Ela explica que cada etapa funciona como um exercício democrático, em que é fundamental conhecer o município, compreender as deficiências do território, estudar e chegar aos debates com propostas bem definidas. Para ela, não adianta querer ter voz se não souber o que defender de fato.
Ao chegar à etapa estadual, Jamile participou de um evento que reuniu cerca de 300 pessoas, experiência que classificou como inesquecível. Ela ressaltou a diversidade do público e a possibilidade de diálogo como pontos centrais do encontro. A jovem também destacou o simbolismo de representar o território como mulher preta, agricultora familiar, extrativista de mangaba e estudante de escola agrícola, aos 21 anos de idade.

Jamile defende que a juventude precisa estar à frente dos debates sobre agroecologia, agricultura familiar e permanência no meio rural. Para ela, é um equívoco afirmar que os jovens não querem permanecer no campo. Segundo a jovem, os jovens desejam estar no campo, participar dos debates e ser ouvidos.
A expectativa, segundo Jamile, é que todo esse processo de participação e construção coletiva se transforme em conquistas concretas, garantindo políticas públicas que fortaleçam os territórios e deem dignidade às famílias rurais. Para ela, essa pauta é de extrema importância e relevância, não apenas para a Bahia, mas para todo o Brasil, que precisa reconhecer o campo como espaço de vida, produção, identidade e futuro.




